Se há uma máxima interessante e que tem se mostrado verdadeira a partir do nosso ponto de vista experiencial, enquanto humanidade, é que nada permanece o mesmo. Tudo se transforma, tudo muda, tudo passa, tudo parece estar em constante ordem de evolução. Evolução é a grande meta do universo e tudo o que ele contém. Tudo está em ordem de evolução.

Da mesma forma, o pensamento humano e nossas ideias também estão em ordem de evolução. Em nossas palestras sobre o Data Limite, encontro constantemente pessoas que me dizem o seguinte: “se o propósito da reencarnação é a melhoria contínua do ser a partir de uma série de experiências encarnatórias que lhe permitam o aprimoramento pessoal, não deveríamos ter hoje um mundo melhor do que tivemos ontem? Ora, o mundo só piora a cada dia que passa”. Como responder a uma perspectiva tão clara e coerente como esta? Oferecendo a esta pessoa novas perspectivas a partir do seu ponto de vista experiencial. Este é sempre o primeiro passo da jornada.

Já falamos que ideias são formuladas a partir de pontos de vista experienciais. Avalie comigo a primeira ideia que esta declaração apresenta: “o mundo está cada vez pior”. E esta primeira ideia traz uma segunda ideia oculta: se o objetivo da reencarnação é evoluir o indivíduo para que, com isto, evolua-se o todo; e se o todo (mundo) está cada vez pior, então a ideia da reencarnação ou é falsa, ou é ineficaz.

O ponto fundamental aqui é questionar porque essa pessoa acredita que o mundo está cada vez pior, já que esta é a sua perspectiva fundamental. Ela rapidamente responderá com uma enxurrada de notícias sangrentas, vídeos e casos violentos relatados na internet, intolerância religiosa, preconceito, corrupção, e uma lista sem fim de atrocidades recentes que se propagam como verdadeiras pestes na mídia global. “O noticiário é só coisa ruim” vai dizer arrematando. Neste ponto eu concordo com ela. Outro dia um amigo me disse assim:

– Juliano, você já reparou que não acontecem acidentes simples em São Paulo? A gente nunca vê, por exemplo: “caminhão bate na marginal” e ponto. As manchetes são sempre de acidentes cinematográficos: “caminhão de produtos químicos capota e esparrama ácido por toda faixa da marginal que, corroída, dragou para um buraco sem fim, centenas de carros!” (Risos)

Respondi dizendo que não se trata de São Paulo só ter acidentes extraordinários. Todos os dias acontecem dezenas ou até centenas de acidentes simples, nos quais tudo foi resolvido sem maiores problemas, onde as pessoas saíram ilesas, como que por um milagre, onde nada de pior aconteceu. A questão é que desfechos simples não atraem audiência, e se não atraem audiência não viram notícia. A televisão não vive de jornalismo ou da produção de novelas. A produção de conteúdo não é um fim para a TV, mas um meio. A verdadeira finalidade da televisão é o comércio de audiência. Esse é o negócio central. O canal de TV procura as empresas que precisam se fazer conhecidas no mercado e lhes oferece a garantia da atenção de um público de pessoas que estão (literalmente) cativas à sua programação. Então a programação cumpre o seu papel no processo do negócio principal da televisão: atrair e manter cativo o público, para que os anunciantes possam exibir seus produtos e serviços. Ou seja, a TV vende audiência. A TV vende a atenção de pessoas como eu e você. Logo é preciso, infelizmente, dar ao povo o que o povo quer: espetáculos, segundo a boa e velha política do “pão e circo”.

Recentemente o médium Divaldo Franco foi entrevistado por um programa de grande audiência. Na base da grade desse programa, a entrevista sobre Divaldo, sua mediunidade, história e obra social, deve ter representado ao todo não mais do que 5% de seu tempo total. Aproximadamente 15% do tempo é dedicado aos futebolistas, com os melhores lances das partidas da semana, os campeonatos e posição dos clubes. Outros 15% ficam dedicados a variedades quase sempre inúteis ou idiotizantes, enquanto os outros 60% ficam para corrupção, crimes, doenças, guerras e violências de todo o tipo. Como não é todo domingo que se tem gente de bem sendo retratada pelo programa, 70% do tempo de programação se resume a todo tipo de notícia negativa e perturbadora.

Então será que o mundo está realmente pior? Ou estamos presos a uma perspectiva que nos é oferecida a partir do ponto de vista dos diretores de conteúdo dos canais de televisão, que precisam atrair, ainda que de maneira sórdida e baixa, a atenção do maior número de pessoas possível? Será que esta perspectiva de mundo retrata fielmente o momento em que estamos vivendo?

Não estou vendendo aqui um mundo de Poliana, que não exista mal na Terra e que a corrupção não deva ser denunciada, ou ainda que devamos estar alheios aos acontecimentos relevantes de nossa sociedade, que exijam nosso papel ativo enquanto cidadãos. Não! Apenas estou lembrando que o derramamento de sangue, oferecido outrora nos espetáculos romanos dos grandes coliseus continua hoje sendo oferecido para deleite e distração do público, que entorpecido pelos fatos cotidianos, adota ideias fracas e limitadas de um único ponto de vista, como um cavalo que somente enxerga o que o cabresto do dono o permite.

Esta simples perspectiva oferecida minaria completamente aquela ideia inicialmente apresentada de que o mundo está cada vez pior. Mas como o conhecimento pleno de uma verdade só é possível através de múltiplos pontos de vista experienciais, me permita oferecer ainda uma outra perspectiva sobre o mesmo assunto.

Quem já visitou o Museu do Louvre em Paris deve ter tido a oportunidade de conhecer, em um de seus corredores, uma pedra preta, de ponta arredondada e formato cilíndrico, com aproximadamente uns dois metros altura e cheia de pequenos hieróglifos a formar palavras e sentenças num idioma bastante antigo. Este monólito é o Código de Hamurabi, que representa um conjunto de leis escritas, oriundo da Mesopotâmia. Acredita-se que foi escrito pelo rei Hamurabi, da Babilônia, próximo de 1700 a.c. Seu conteúdo trata de temas cotidianos e abrange matérias de ordem civil, penal e administrativa como, por exemplo, o direito da mulher de escolher outro marido caso o seu seja feito prisioneiro de guerra e não tenha como prover a casa, ou a obrigação do homem de prover o sustento dos filhos mesmo que se separe de sua mulher. Ao todo foram traduzidos 281 artigos a respeito de relações de trabalho, família, propriedade e escravidão. O código é conhecido por ser o primeiro corpo de leis de que se tem notícia, fundamentado no princípio da Lei de Talião, que estabelece a equivalência da punição em relação ao crime. O termo talião é originado do latim e significa tal ou igual, daí a expressão “olho por olho, dente por dente“.

O mesmo princípio também influenciou o código de leis que regia o Antigo Testamento:

Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé… (Êxodo 21:24)

Fratura por fratura, olho por olho, dente por dente. Assim como feriu o outro, deixando-o defeituoso, assim também será ferido. (Levítico 24:20)

Não tenham piedade. Exijam vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé. (Deuteronômio 19:21)

Quando vemos a extraordinária lição de amor de Jesus sobre pagar o mau com o bem, transformando um ciclo vicioso de vingança num ciclo virtuoso de amor, em perspectiva, consideramos o Código de Hamurabi, a Lei de Talião e mesmo os livros do Antigo Testamento, primitivos e selvagens. Mas não foi sempre assim.

Se lançarmos um olhar ao passado, quando estes códigos foram estabelecidos, vamos perceber que para o seu contexto histórico, eles representaram um tremendo avanço nas relações humanas. Para as barbáries da época, a vingança (retribuição do mal recebido) era escalonada pelo ódio em ferir de volta e com maior intensidade, para superar a dor da ofensa recebida. E neste sentido, não tinha fim.

O sujeito se envolvia, por exemplo, numa briga no mercado da cidade e levava uma surra. No dia seguinte, juntava mais 3 ou 4 caras e partia para devolver a surra, 4 vezes pior no primeiro sujeito, que o tinha surrado no dia anterior. O troco vinha a cavalo, o primeiro sujeito partia para matar a irmã mais nova do segundo, que por sua vez, em retorno, mataria toda família do primeiro. E assim o ódio e a vingança eram escalonados ao infinito, num ciclo vicioso sem fim.

Neste contexto, a máxima “olho por olho, dente por dente” estabelecia um limite plausível e, porque não dizer justo, ao mal que se tinha direito de devolver ao agressor. Se ele lhe agrediu, você tem o direito de agredir, mas na mesma medida. Se ele lhe deu um soco, você pode dar um soco, se ele roubar sua irmã, você pode roubar a irmã dele. E assim por diante. Foi uma evolução tremenda para uma época bárbara, e ainda hoje, parece justo e aceitável, não fosse a revolução sistemática de amor proposta por Jesus em Mateus 5:38-46

Vocês ouviram o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente” Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha[1], vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado. Vocês ouviram o que foi dito: “Ame o seu próximo e odeie[2] o seu inimigo”. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos[3] e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão? Até os publicanos fazem isso!

Jesus vem para propor uma revolução de amor, uma quebra no ciclo vicioso que paga o mal com o próprio mal. Ele propõe a entrada do amor na equação. Uma proposta que representa um avanço tremendo no pensamento da Lei de Talião, mas que por 20 séculos tivemos muita dificuldade para colocar em prática, e sejamos francos aqui, ainda não conseguimos colocá-la. Mas veja em perspectiva, já não somos mais os bárbaros para quem a Lei de Talião representou um desafio de avanço moral. Isso tudo para dizer: a humanidade está evoluindo sim! Estamos caminhando e melhorando sim! Talvez a passos menos largos do que gostariam aqueles que já conseguem vislumbrar um mundo bem melhor, mas estamos sim no caminho do aperfeiçoamento.

Numa paisagem imediata, temos a impressão de que tudo está ruim (…) porque infelizmente ainda damos preferência para este noticiário. Mas ao mesmo tempo está em nossas mãos escrever o nosso destino. (…) Nunca houve tanto amor na Terra como hoje! Jamais houve tanta dedicação ao bem, tanto interesse pela ordem e pelo progresso. Em que época da humanidade, nós criaturas nos interessamos pelo ecossistema? Pelo respeito à Terra, à vida? Pela preservação das espécies vegetais, animais e principalmente do ser humano?[4]

Divaldo Franco

Com isso, respondemos com duas novas perspectivas, as afirmações iniciais de que o mundo está cada vez pior e, consequentemente a ideia de que a reencarnação não se sustenta. Há ainda dezenas de outros argumentos, outras perspectivas, que ainda poderiam ser colocadas aqui. Daí a importância de garimpar o conhecimento continuamente, em busca de novos pontos de vista experienciais. Conseguimos com isso convencer a favor de nosso pensamento a pessoa que levantou tais afirmações? Talvez sim, talvez não. Este poder não é nosso. Não podemos e nem devemos nos ocupar de convencer ninguém a respeito de nada. O que podemos sempre fazer é oferecer novas perspectivas e provocar o pensamento nas pessoas com quem nos relacionamos. Elas, por sua vez, deverão chegar ao convencimento das novas realidades a partir de sua própria reflexão e experiência sobre a questão. Como dizia o filósofo grego:

Eu não posso ensinar nada a ninguém, eu só posso fazê-lo pensar.
Sócrates


Sempre avanti! Que questo é il piú importante!

Juliano Pozati

Referências

Artigo extraído do livro DATA LIMITE SEGUNDO CHICO XAVIER

[1] A milha romana tinha cerca de 1.500 metros.

[2] Lv 19.18

[3] Alguns manuscritos acrescentam abençoem os que os amaldiçoam, façam o bem aos que os odeiam

[4] Programa Conteúdo Inteligente por um Mundo Bem Melhor – Episódio: A Data Limite –  Pozati Filmes. Disponível em https://youtu.be/IBGAoCB8_U8

Juliano Pozati

Author Juliano Pozati

JULIANO POZATI É ESCRITOR, DOCUMENTARISTA E ENTUSIASTA DE NOVAS IDEIAS QUE INSPIREM A QUEBRA DE PARADIGMAS OBSOLETOS NAS ÁREAS DA ESPIRITUALIDADE, CIÊNCIA, FILOSOFIA E UFOLOGIA.

More posts by Juliano Pozati

Join the discussion One Comment

Leave a Reply to ARTIGO: Uma nova perspectiva sobre a lógica da reencarnação – Juliano Pozati | Espiritismo de Ponta Cancel Reply